De volta a Brasília, após dez anos, o encontro reuniu docentes, pesquisadores e gestores para debater políticas públicas e enfatizar a formação do docente de Ciências Matemáticas, funcionando como um espaço de diálogo entre governo, universidades e as escolas

De 25 a 28 de setembro, a Associação Nacional dos Professores de Matemática na Educação Básica (ANPMat) realizou, em parceria com a Universidade de Brasília (UnB) e co-realização inédita com o Ministério da Educação (MEC), o 8º Simpósio Nacional da Formação do Professor de Matemática, que reuniu professores da educação básica, pesquisadores, gestores e estudantes para debater propostas e possibilidades de melhorias na qualidade do ensino, além de contribuir para a formação de estudantes e profissionais ligados à Matemática.
O encontro contou com o apoio de instituições como Itaú Social, Movimento Profissão Docente, Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA), Sociedade Brasileira de Matemática (SBM), Instituto Federal de Brasília (IFB), Sociedade Brasileira de Educação Matemática (SBEM) e Olimpíada de Professores de Matemática do Ensino Médio (OPMbr). Criada em 2013, a série de simpósios da ANPMat percorreu diferentes regiões do Brasil, consolidando-se como ambiente de troca de experiências e fortalecimento profissional.
Brasília, sede das duas primeiras edições dos simpósios, voltou a receber o encontro dez anos depois, reforçando a simbologia de um retorno às origens em um momento de renovação de parcerias e ampliação de perspectivas para o futuro do ensino de Matemática.
Ao longo de quatro dias, os participantes debateram temas centrais como currículo inclusivo, equidade racial, neurociência aplicada à aprendizagem Matemática, inovação pedagógica, além da valorização da experiência docente.
Durante o evento, o Simpósio se apoiou em 17 eixos temáticos, entre palestras, mesas-redondas, minicursos, oficinas e sessões de comunicação oral e de pôsteres.
Segundo a Presidente da ANPMat, Sumaia Almeida Ramos, o evento reafirmou a importância de colocar o professor no centro das discussões sobre qualidade do ensino. “Há dentro desse compromisso uma preocupação sobre os conhecimentos que o professor que ensina Matemática precisa ter, como levar esse conhecimento, como estimular espaços formativos. Isso demonstrou uma preocupação não só do MEC, mas de todas as instituições presentes, porque se preocupar com a formação do professor de Matemática é também se preocupar com o ensino da Matemática no Brasil”, afirmou a professora, que fez parte da Comissão Organizadora do congresso.

Para Marcelo Viana, diretor-geral do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA) e um dos idealizadores da primeira edição do Simpósio, o encontro de Brasília marcou um ponto de virada. “Como uma das pessoas que concebeu e organizou o 1º Simpósio, no qual foi criada a ANPMat, é uma enorme satisfação ver todo o caminho percorrido nesses 12 anos. A ANPMat já se tornou a entidade representativa dos professores de Matemática e a parceria do MEC na organização do Simpósio é emblemática desse fato”, afirmou o pesquisador.
Pré-simpósio no MEC e anúncio de política nacional
Antes da abertura oficial do evento, a programação já havia começado em um espaço estratégico: o auditório do MEC, na Esplanada dos Ministérios. Ali, a Diretoria da ANPMat participou, ao lado de representantes da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime), Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed), Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e gestores estaduais e municipais, de um encontro técnico que apresentou ao público o Compromisso Nacional Toda Matemática.

Também estavam presentes professores de Matemática na rede básica de ensino e de cursos de formação inicial e continuada de diferentes regiões do Brasil, além de representantes do Impa, da UnB, da SBM e da SBEM. Quem iniciou a exposição do Compromisso Nacional Toda Matemática foi o professor Alexsandro do Nascimento Santos, Diretor de Políticas e Diretrizes da Educação Integral Básica da Secretaria de Educação Básica (SEB) do MEC.

O anúncio da iniciativa foi considerado por especialistas como um marco para a política educacional do país. “O decreto do Toda Matemática representa um compromisso inédito e ousado do governo federal com a qualidade do ensino da Matemática em todo o Brasil. Por meio dele, o MEC passa a coordenar ações com estados e municípios, promovendo a formação de professores, disponibilizando material pedagógico e ferramentas didáticas para a melhoria do ensino de Matemática, visando também reduzir as desigualdades regionais”, explicou Viana.
Abertura histórica para a ANPMat
O segundo dia marcou o início oficial do Simpósio. Para a ANPMat, foi um marco: pela primeira vez, a mesa de abertura reuniu lado a lado MEC, Undime, Consed, Impa, Itaú Social, UnB, SBM e SBEM, sinalizando a construção de um diálogo inédito entre instituições de diferentes áreas da educação.
Essa aproximação fortaleceu as expectativas de um acordo de reciprocidade entre ANPMat e as Sociedades, ampliando a articulação para que o conhecimento produzido na academia chegue de forma mais concreta aos professores da educação básica.

O professor Marcelo Viana atraiu os holofotes novamente em sua conferência, quando abordou a importância de aproximar a produção científica de alto nível da formação docente, mostrando como a Matemática de fronteira pode inspirar e fortalecer a prática em sala de aula. Para os participantes, ouvir uma das principais vozes da pesquisa Matemática no Brasil reforçou a dimensão de que investir no professor é também investir na ciência e no futuro do país.
O dia 25 foi marcado por discussões que apontaram temas urgentes e transformadores. O educador português José Pacheco, fundador da Escola da Ponte, trouxe um olhar humanizado sobre a educação, defendendo práticas centradas no estudante e na autonomia da aprendizagem. Além disso, houve uma mesa sobre educação antirracista em Matemática, promovida em parceria com o Itaú Social e SBM, a qual abriu reflexões sobre equidade racial e justiça social na sala de aula.

Logo depois, o MEC apresentou dados da escuta nacional com professores de Matemática, pesquisa que ajudou a fundamentar a formulação do Compromisso Toda Matemática. Outro destaque foi a mesa da OPMbr, que trouxe relatos de medalhistas e a experiência inédita de imersão em Xangai, na China, mostrando como vivências internacionais podem inspirar práticas no Brasil.
Livro didático, a inclusão e experiências globais
A sexta-feira, dia 26, foi marcada por uma mesa que contou com a participação do Instituto Sidarta, na presença de sua presidente Ya Jen Chang, o professor Antônio José Lopes (popularmente conhecido por ‘Antônio Bigode’), autor de livros didáticos de Matemática para educação básica, Raphaella Rosinha Cantarino, Coordenadora-Geral de Materiais Didáticos do MEC, e Leonardo Barichello, professor do Instituto de Matemática e Estatística da USP (IME-USP).

Essa composição teve como objetivo discutir o Programa Nacional do Livro Didático (PNLD), identificando como se configurou, em interação com outras políticas públicas, na forma como se apresenta atualmente, quais seus méritos e fragilidades, identificar demandas e apontar oportunidades para o programa se fortalecer dentro dos seus objetivos. A mesa foi composta por especialistas com trajetórias que se cruzam com a iniciativa de diferentes maneiras, permitindo uma visão diversa e ainda assim aprofundada sobre o tema.
Na sequência, a professora Luísa Doering, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), emocionou o público ao apresentar sua trajetória e o projeto dos tijolos táteis — recursos pedagógicos que permitem a estudantes cegos ou com baixa visão compreenderem operações e equações. A experiência pessoal da pesquisadora deu ainda mais força ao tema da inclusão.

Na programação, também foi reservado espaço adequado para uma visita técnica ao MEC. Entre os participantes, esteve também uma delegação do Ceará. O grupo de 22 professores medalhistas da primeira Olimpíada Cearense para Professores de Matemática da Rede Pública Estadual (OPMAT) recebeu como premiação a viagem a Brasília, com hospedagem e alimentação custeadas pela Secretaria de Educação Estadual.
A professora Gisele Oliveira Pereira, da Universidade Estadual do Ceará (UECE), que acompanhou o grupo, destacou a importância dessa experiência. “Todos que foram ficaram extremamente maravilhados no lançamento do programa Toda Matemática. Foi muito significativo estar ali, conhecer as dependências do MEC, assistir às mesas, visitar o túnel histórico. Essa foi uma das experiências mais marcantes que nós tivemos”, relatou ela, que acompanhou o grupo de professores na função de técnica educacional na Secretaria de Educação do Estado do Ceará (Seduc).

Formação docente e experiências práticas
O sábado, dia 27, começou com a primeira sessão de comunicações orais, espaço dedicado à apresentação de pesquisas acadêmicas desenvolvidas por professores, estudantes e pesquisadores da área de Educação Matemática.

Essas atividades marcaram a diferença em relação ao domingo, reservado para os relatos de experiência — sessões mais voltadas à prática docente na educação básica. Ainda pela manhã, o público acompanhou a mesa-redonda “Mentalidades Matemáticas e a Formação Docente para uma Matemática Inclusiva”, que discutiu abordagens de ensino centradas na colaboração, na confiança e no potencial de cada estudante para aprender Matemática.

Após o intervalo para o almoço, a programação seguiu com uma intensa agenda de minicursos e oficinas, que tomaram toda a parte da tarde e proporcionaram momentos de experimentação prática, troca de saberes e aprofundamento de metodologias voltadas à sala de aula.
O evento também contou com lançamentos importantes, como o da revista Pé na Aula, feita por e para professores da educação básica.
Impacto e próximos passos
O último dia do Simpósio (28) foi dedicado a dar voz aos professores da educação básica em sessões de relatos de experiências, que trouxeram exemplos concretos de práticas pedagógicas em diferentes regiões do país. A programação também contou com apresentações culturais, como o coral da UnB, que emocionou os participantes com a apresentação de clássicos do cancioneiro popular antes da palestra de encerramento.

Durante a cerimônia de encerramento, foram anunciados os premiados do Desafio de Comunicação Científica – Matemática da Educação Básica, coordenado pelo professor Mateus Gianni Fonseca, do Instituto Federal de Brasília (IFB). A iniciativa mobilizou professores de todo o país em produções criativas e inovadoras sobre o ensino da Matemática.
Entre as propostas recebidas, 15 vídeos chegaram à etapa final, revelando a diversidade de abordagens e linguagens na divulgação científica e no ensino da disciplina. Dez produções foram premiadas com experiências formativas oferecidas pelo MEC, incluindo visita ao IMPA Tech e outras ações de fortalecimento da prática docente. O desafio reforçou o compromisso do Simpósio em valorizar a criatividade docente e incentivar práticas pedagógicas diferenciadas em sala de aula.

O domingo foi encerrado de forma inspiradora pelo professor Ricardo Ramos Fragelli, da UnB, com a palestra ‘Qual é o seu dinossauro?’. Foi um bate-papo interativo que abordou diferentes aspectos da educação com ênfase em estratégias pedagógicas baseadas em aprendizagem ativa e colaborativa e a busca de um olhar mais atento para questões como aprendizagem, engajamento, colaboração, criatividade, ansiedade, empatia e solidão.
“O simpósio fortaleceu parcerias, reafirmou o diálogo com o MEC e abriu novas perspectivas para que o professor de Matemática seja protagonista nas transformações necessárias. Se preocupar com a formação do professor é se preocupar com o ensino de Matemática e, consequentemente, com o futuro do país”, concluiu Sumaia Ramos.
A ANPMat já tem definidas as diretrizes para a próxima edição: o 9º Simpósio será realizado entre 19 e 22 de novembro de 2026, na Universidade Federal do Maranhão (UFMA), marcando a primeira vez que o evento nacional ocorrerá no Nordeste.

Como se pode notar, o encontro em Brasília deixou evidente que o fortalecimento da formação de professores de Matemática depende da construção de pontes entre governo, universidades, entidades científicas e, sobretudo, a escola básica. Ao reunir diferentes vozes em torno de um mesmo compromisso, o simpósio reafirmou que o futuro da educação Matemática no Brasil passa pela valorização do professor como agente de transformação social e pelo investimento contínuo em espaços de diálogo e inovação.