Entrevista com o Secretário Regional da ANPMat da Região Nordeste Prof. Odimógenes Soares Lopes

1- Fale um pouco sobre sua formação, trajetória e atuação no Ensino de Matemática.

Graduado em Licenciatura Plena em Matemática pela Universidade Estadual do Piauí (2001), Especialização em Administração Escolar pela Universidade Cândido Mendes (2003) e Mestrado em Ensino de Ciências e Matemática pela Universidade Luterana do Brasil (2009). Atualmente é professor titular do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Piauí (IFPI) – Campus Floriano, com atuação em disciplinas do curso de Formação de Professores de Matemática.  Foi coordenador Institucional do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (PIBID/IFPI 2011) no período de 2011 e 2012 e atualmente é coordenador do Curso de Aperfeiçoamento de Professores de Matemática do Ensino Médio (CAPMEM), vice-coordenador do Mestrado Profissional em Matemática em Rede Nacional (PROFMAT) e Diretor-geral do IFPI – Campus Floriano.

2- Como você vê a importância da atuação da ANPMat no atual cenário?

A ANPMat é uma organização de suma importância para disseminação de boas práticas, práticas inovadoras e experiências exitosas em ensino de Matemática, bem como de apoio aos professores de Matemática de nosso país, por meio da realização de eventos regionais e nacional que possibilitam a formação continuada em docência de Matemática.

3- Na sua opinião, o que podemos fazer para melhorar o ensino de Matemática na Educação básica do Brasil?

Trata-se de uma questão de difícil análise, mas, em sentido amplo, precisamos de mais investimento na Educação Básica em Escolas de Tempo Integral e foco na melhoria da formação dos professores de Matemática desde a formação inicial, além da valorização de professor, de modo geral.

Assim,  poderemos ter mais investimentos e incentivos em bons programas e projetos como a OBMEP e o PROFMAT, que contribuem de sobremaneira com a melhoria do ensino de Matemática na educação básica em nosso país.

4- Como foi (ou está sendo) a sua experiência com o PROFMAT? O que mudou na sua vida com o PROFMAT?

Eu não sou egresso do PROFMAT, mas agora estou ministrando a disciplina Matemática Discreta, em parceria com o professor Ronaldo Campelo, e a experiência tem sido muito enriquecedora, uma troca de conhecimento entre professores, pois, ao passo que ensino, também aprendo com os nossos discentes.

5- Na sua opinião, quais as influências positivas do PROFMAT na formação do professor da educação básica?

Sem dúvidas, o PROFMAT tem contribuído significativamente para a formação do professor de Matemática da educação básica, pois o professor tem oportunidade de aprofundar seus conhecimentos em importantes temas do ensino fundamental e médio ao mesmo tempo em que oportuniza a esse mesmo professor refletir sobre sua prática e construir conhecimento relacionado ao ensino de Matemática durante a produção de sua dissertação.

6- Como está sendo a sua experiência com as aulas e atividades on-line? Alguma dica que considera interessante para o ensino remoto?

Tive uma experiência com a disciplina Matemática Discreta no PROFMAT que  me oportunizou conhecer e utilizar novas tecnologias, tais como a lousa digital e o Google Meet, ferramentas que diminuem a distância entre professor e alunos.

Entrevista com o secretário regional da ANPMat da Região Norte Prof. Aroldo Athias

1- Fale um pouco sobre sua formação, trajetória e atuação no Ensino de Matemática.

Decidi ser professor quando estava no 2º ano do ensino médio e considero que essa foi uma das decisões mais importantes de minha vida, pois não consigo me imaginar fazendo outra coisa. Mas nossas decisões não são simples resultado de nossa vontade, são também consequência de nossa história. Com excelentes professores na educação básica, mãe e tias todas professoras, não me faltaram exemplos para seguir. Não à toa, desde a 6ª série do ensino fundamental comecei a trazer colegas para estudar em casa, prática que virou rotina até o fim do ensino médio.

Minha educação básica foi toda dentro de um modelo tradicional de ensino, em instituições privadas, e deu muito certo pra mim. Apesar disso, defendo a escola pública e penso que muitas práticas tradicionais de ensino precisam ser superadas. Sobre o ensino tradicional, penso que o fato de ter funcionado comigo não implica que funcione para a maioria das pessoas. Quanto a defesa da escola pública, e gratuita, vem da compreensão de educar é dar oportunidade e todos devem ter as mesmas oportunidades, não apenas quem pode pagar. Eu tive oportunidade de fazer minha escolha e escolhi ser professor. Não quero que a oportunidade que tive seja negada a outros. Negar educação a alguém é limitar seus sonhos, quero ajudar outras pessoas a sonharem, a verem que o campo de possibilidades que lhes é apresentado nem sempre representa tudo o que realmente está à disposição delas.

A opção pela matemática veio depois da decisão pela docência. A Matemática era uma paixão pessoal e é bom ensinar sobre aquilo que se gosta. Fiz o curso de licenciatura na Universidade do Estado do Pará (Uepa). Foi na universidade que entrei em contato com as ideias de Paulo Freire e me identifiquei bastante com elas, mas daí a coloca-las em prática, há um grande abismo que ainda venho tentando transpor, mas acho que estou, aos poucos conseguindo.

Dois anos depois de formado tive a oportunidade de me tornar professor efetivo da escola pública estadual. No começo, era um professor de matemática bem tradicional, mas com o tempo fui percebendo que essa postura não estava contribuindo para que os alunos aprendessem. Aos poucos fui modificando minhas práticas, encontrando meu caminho como professor. Cometi, e ainda cometo muitos equívocos, mas todos os erros foram ou são na tentativa de acertar.

Em 2011, entrei no mestrado e o PROFMAT mudou completamente a minha vida. Mas vou deixar para falar mais sobre isso nas próximas perguntas.

2- Como você vê a importância da atuação da ANPMat no atual cenário?

A ANPMat é a Associação Nacional dos Professores de Matemática da Educação Básica. Logo, em seu nome carrega a missão de congregar os professores de matemática de todo país em uma imensa rede colaborativa. Mais do que nunca precisamos nos conhecer, compartilhar nossas experiências, saber o que está dando certo e o que não está funcionando. A pandemia criou um cenário no qual o ensino remoto se faz necessário, e com ele a demanda pela apropriação por ferramentas tecnológicas pelos professores. Colaborar com este processo de formação dos docentes é uma parte importante da missão da ANPMat, a qual esta vem buscando realizar através da realização dos Simpósios, de lives e de publicações.

3- Na sua opinião, o que podemos fazer para melhorar o ensino de Matemática na Educação Básica do Brasil?

Essa é uma questão complexa, pois depende de muitas variáveis. Melhorar a qualidade do ensino de matemática na educação básica perpassa pela melhoria do sistema educacional como um todo. Necessitamos de políticas públicas voltadas para educação que melhorem as condições estruturais de trabalho nas escolas, esse é um primeiro passo importantíssimo e que depende de vontade política e sabemos que, infelizmente, nossos governantes não costumam colocar educação como prioridade. E aí não basta colocar dinheiro na educação, é preciso garantir que esse dinheiro chegue nas escolas e que seja utilizado com o objetivo de melhorar a qualidade da educação oferecida nesses espaços de formação. Esse é o primeiro ponto, e não pode ser ignorado.

Uma outra questão central é a forma como o sistema de ensino está estruturado, a meu ver, o modelo disciplinar, no qual as diferentes áreas não se comunicam, é uma razão importante para os problemas enfrentados com o ensino de matemática. Assim, como podemos ver, o problema do ensino de matemática vai muito além da alçada do professor de matemática. O objetivo do ensino não pode ser simplesmente preparar os alunos para o ano seguinte, reproduzindo um modelo de formação punitiva e que visa o controle dos indivíduos.

Finalmente, temos a importantíssima questão da formação do professor de matemática, que é onde nós da ANPMat temos maiores chances de colaborar. Nesse aspecto, um trabalho importante já vem sendo feito por meio dos Simpósios da Formação do Professor de Matemática, reunindo professores para discutirem sobre suas práticas.

No sentido de tentar não deixar a pergunta sem resposta, penso que precisamos criar mais espaços para debater questões como “qual a finalidade daquilo que ensino?” ou “como o aluno aprende?”. A meu ver, o problema do ensino de matemática vai além de um despreparo no que diz respeito ao domínio de conteúdos matemáticos em si. O problema começa com o desconhecimento de metodologias para o ensino desses conteúdos, é verdade, mas vai muito além disso, esbarra nas próprias concepções de ensino que nós, professores de matemática carregamos conosco. E eu não digo isso pensando nos colegas professores, falo isso começando por mim mesmo. Precisamos sair do “modo automático” e começar a refletir sobre nossas práticas docentes.

Precisamos ter em mente que não se trata apenas de melhorar o ensino de matemática, o professor de matemática não está e não pode trabalhar isolado, pensando apenas em seu nicho, trata-se de melhorar o ensino como um todo. Precisamos pensar em conjunto com os colegas de outras áreas do conhecimento sobre que tipo de pessoa desejamos formar, meros reprodutores e defensores do modelo injusto de sociedade que temos vivenciado ou cidadãos dispostos a agir sobre essa realidade para transformá-la? Penso que é urgente nos fazermos a pergunta: “o que estamos ensinando e a forma como estamos ensinando têm contribuído em qual dessas direções?”.

4- Como foi a sua experiência com o PROFMAT? O que mudou na sua vida com o PROFMAT?

Como disse antes, o PROFMAT mudou completamente a minha vida. A possibilidade de fazer o mestrado permitiu que mais tarde eu me torna-se professor da universidade. Hoje eu atuo como professor do curso de licenciatura integrada em matemática e física da Universidade Federal do Oeste do Pará, a Ufopa, mas, logo que me formei, tive o privilégio de ser um dos egressos do programa sorteado para realizar um curso de Didática da Matemática em Paris. Passei quatro semanas naquele belíssimo lugar, convivendo com outros 25 professores, também egressos do PROFMAT, das mais diversas regiões do país. Até hoje muitos de nós mantemos contato e essa rede de contatos que foi criada lá é importantíssima. Foi por causa deles que comecei a participar dos Simpósios e foi daí que veio meu envolvimento com a ANPMat. Então posso afirmar que, se hoje faço parte da ANPMat, é graças ao PROFMAT.

Mas minha relação com o PROFMAT não termina por aí. Já na universidade, comecei a atuar como professor assistente e depois efetivo dentro do programa. Já fui vice-coordenador do programa na Ufopa e hoje faço parte da comissão nacional de avaliação dos discentes do programa.

Resumindo, apesar de todo conhecimento construído durante os dois anos de curso, avalio que a principal marca que o PROFMAT deixou em minha vida foi essa rede de contatos maravilhosa que foi criada, desde os colegas e professores do curso, até os colegas professores que passei a conhecer dos mais diversos cantos do país.  Todos os dias aprendo muito com eles.

5- Como está sendo a sua experiência com as aulas e atividades on-line? Alguma dica que considera interessante para o ensino remoto?

Minha experiência com o ensino remoto está sendo melhor do que o que eu esperava. Minha preocupação é com aqueles alunos que, por uma razão ou por outra, acabam excluídos desse processo. Muitos alunos não conseguem ter acesso a uma conexão de qualidade e acabam prejudicados. O processo de exclusão acaba se intensificando com o ensino remoto. Atualmente, por exemplo, estou trabalhando remotamente o conteúdo de Geometria Espacial com uma turma em que um dos alunos é cego. Tem sido um desafio. O que fiz para tentar contornar o problema foi levar até a casa dele algumas peças em acrílico disponíveis em um dos laboratórios da universidade, para que ele pudesse manipulá-las enquanto os conceitos são trabalhados à distância. Mesmo assim, não consigo deixar de pensar que poderia auxiliá-lo de maneira muito melhor se não fosse necessário manter o isolamento.

Para mim, a transição foi menos dura do que imagino que tenha sido para muitos colegas, pois, ainda quando estava atuando de forma presencial, já vinha me servindo de estratégias como uso de ambientes virtuais de aprendizagem para tentar ampliar as possibilidades de interação ou de softwares como o GeoGebra para desenvolver atividades com os alunos. Mas acho que o que tornou essa transição ainda menos dolorosa foi o fato de que meus paradigmas sobre os processos de ensino-aprendizagem e de avaliação sofreram muitas transformações antes de entrarmos na pandemia.

Imagino que o ensino remoto tenha sido muito doloroso para professores que ainda enxergavam o processo de avaliação dentro de uma perspectiva de controle e atribuição de notas a partir da realização de provas. Afinal, como fiscalizar o aluno nesse contexto de aulas remotas? Como se certificar se não estão colando? Se são eles mesmos que estão realizando os trabalhos?

Vejam que a solução para essas perguntas não está em criar mecanismos tecnológicos de fiscalização e controle dos alunos, mas em uma mudança de concepção da parte do professor, que precisa ser capaz de perceber que o processo de avaliação não tem um fim em si mesmo, mas visa responder à pergunta “o aluno está aprendendo?” com a finalidade de garantir que essa aprendizagem ocorra por meio de mudanças nos métodos de ensino-aprendizagem adotados e não com o intuito de produzir uma nota que não implicará em qualquer mudança nas estratégias de ensino utilizadas pelo professor.

Reduzir os processos de exclusão criados pelo acesso desigual que as pessoas têm à tecnologia depende de uma vontade governamental que não temos visto, e exige organização, articulação e luta por parte da sociedade. Isso leva tempo, mas precisa ser feito. Entretanto, minha dica para estes tempos de ensino remoto é que mais do que nos apropriarmos da tecnologia disponível para reproduzir um modelo tradicional de ensino que já se provou ineficaz em muitos aspectos, possamos nos agarrar a este momento em que estamos aprendendo tantas coisas diferentes para realmente promovermos um ensino diferente, no sentido de migrarmos de um modelo meramente reprodutor para um transformador da realidade.

Entrevista com o prof. Lucas Maciel, secretário regional da ANPMat da região Sul.

1- Fale um pouco sobre sua formação, trajetória e atuação no Ensino de Matemática.

Fiz Licenciatura em Matemática pela UFPEL, formado em 2014, Pós-Graduação em Metodologia do Ensino de Física e Matemática pela Uninter e Comecei o Mestrado ProfMat na UFSM na qual ainda falta a conclusão. Sempre tive curiosidade e fascínio pela área das exatas, na qual me identifiquei. Tive outras oportunidades fora da educação, mas não consigo me imaginar fora deste ramo.

Atuei por 5 anos na educação pública, mais precisamente como professor estadual no ensino médio e fundamental e posterior a isso resolvi mudar da esfera pública e atualmente leciono na rede privada de educação, tanto no ensino fundamental quanto no ensino médio além de cursos preparatórios para Enem, vestibulares e concursos em geral.

2- Como você vê a importância da atuação da ANPMat no atual cenário?

A ANPMat vem desenvolvendo um trabalho de suma importância que é a formação e capacitação dos profissionais da educação matemática em âmbito nacional.  Com este objetivo, a ANPMat contribui para formação continuada em dos Professores da educação básica, além de promover simpósios com mostras de experiências, ministração de minicursos, apresentação de trabalhos, comunicação oral, palestras de diversos temas relacionados a educação matemática.

Mesmo com as restrições do cenário atual, a associação vem se empenhando e contribuindo de forma incansável na educação. Um exemplo é o circuito de lives, na qual em cada live é discutido um novo assunto que visa contribuir para a educação básica. 

3- Na sua opinião, o que podemos fazer para melhorar o ensino de   Matemática na Educação básica do Brasil?

Creio que já temos uma parte da solução, que é o ProfMat, mas precisamos dissemina-lo em larga escala, com recursos e incentivos para que este possa alcançar mais professores da educação básica. Outra sugestão seria fomentar cada vez mais a formação continuada de modo sistêmico em todas as regiões do Brasil, visando ter uma abrangência maior de professores se capacitando continuamente para daí então começarmos a ter uma melhora no ensino de Matemática no Brasil.

4- Como foi (ou está sendo) a sua experiência com o PROFMAT? O que mudou na sua vida com o PROFMAT?

O PROFMAT mudou e está mudando o meu jeito de enxergar a aplicação matemática dentro e fora da sala de aula. A aplicabilidade de contextos matemáticos faz muito mais sentido quando enxergamos por outras perspectivas.  Tenho um caminho ainda para percorrer, mas posso garantir que desde o começo eu aprendi muito e já pude compartilhar ensinamentos obtidos neste programa.

5- Como está sendo a sua experiência com as aulas e atividades on-line? Alguma dica que considera interessante para o ensino remoto?

Para mim, está sendo uma novidade, pois nunca tinha trabalho neste modelo.  Posso dizer que estou me adaptando e também gostando desta metodologia. Para nós professores, eu diria que a escolha do local para a transmissão online conta bastante. Poder escolher um lugar sem ruídos, com boa ergonomia e boa conectividade é o essencial para o bom trabalho nas atividades online.

Entrevista com o prof. Mateus Gianni Fonseca, secretário regional da ANPMat da região Centro-Oeste.

1- Fale um pouco sobre sua formação, trajetória e atuação no Ensino de Matemática.

Iniciei minha carreira em Matemática com a licenciatura, concluída em 2008 em uma pequena Faculdade Privada do Distrito Federal. Já durante o curso, atuava em aulas de acompanhamento escolar e em projetos extras ligados à Sociedade Brasileira de Educação Matemática – o que muito ajudou a despertar meu interesse pelo Ensino de Matemática.

Após a conclusão da licenciatura, cursei uma Especialização em Educação Matemática ao mesmo tempo em que iniciei a atuação como professor de curso preparatório para concursos públicos – Foi uma experiência interessante, mas que não correspondia exatamente aos meus anseios profissionais.

No ano de 2010 ingressei como professor da Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal. Neste local fiquei mais satisfeito e realizado enquanto profissional, trabalhando com a Educação de Jovens e Adultos. E aplicar os métodos mais diferentes que havia estudado em prol de uma educação significativa me deixava cada vez mais empolgado.

Em 2012, ingressei no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Brasília (IFB). Uma instituição que me proporcionou o que eu precisava para avançar ainda mais com aquilo que acreditava e acredito ser a Educação Matemática que precisamos.

Dessa forma, ingressei em 2014 no Mestrado em Educação e em 2016 no Doutorado em Educação, ambos concentrados na temática Educação Matemática, mais precisamente, sobre o assunto “Criatividade em Matemática”.

Durante este período tive a oportunidade de visitar escolas em diferentes países e conhecer diferentes teorias educacionais ligadas ao ensino de matemática. Tive a oportunidade também de avançar com a produção acadêmica – sou co-autor do livro ‘Criatividade em Matemática: conceitos, metodologias e avaliação’; e co-organizador do livro ‘Criatividade em matemática: lições da pesquisa’.

Além disso, com o apoio dos Professores Cleyton Gontijo e Alexandre Carvalho, mantenho o projeto ‘Biblioteca Virtual de Pesquisas em Pensamento Crítico e Criativo em Matemática’ – um repositório que trata exclusivamente dessa temática que tanto investigamos; e com o apoio do Professor Mauro Alencar, o projeto de divulgação científica ‘Matemática das Coisas’, pois acreditamos que precisamos conquistar o gosto pela matemática da sociedade.

Atualmente, além de Secretário Regional Centro-Oeste da ANPMat, sou Diretor de Ensino, Pesquisa e Extensão do IFB, campus Ceilândia; e Segundo líder do grupo PI: Grupo de Pesquisas e Investigações em Educação Matemática – UnB.

2- Como você vê a importância da atuação da ANPMat no atual cenário?

Acredito que a ANPMat é importante para nos fortalecermos enquanto profissionais responsáveis pelo ensino e pela reflexão sobre a educação matemática do País. Acredito que é importante para estimular o network e o consequente compartilhamento de experiências entre professores que estão inseridos nos mais variados contextos. Além disso, acredito ser importante para que hajam ofertas sistemáticas de formação continuada.

3- Na sua opinião, o que podemos fazer para melhorar o ensino de Matemática na Educação básica do Brasil?

Eu responderia essa pergunta com outra pergunta: Que matemática queremos de nossos cidadãos? Ou melhor: Que esperamos dos egressos da educação básica? Pergunto isso porque tenho a impressão de que algumas vezes a fragilidade do conhecimento matemático de muitos se inicia a partir de um contato equivocado acerca do que é matemática. Falas como “sou bom em matemática, basta eu saber a fórmula” é um exemplo da visão reducionista que muitos acabam construindo em suas jornadas; quando na verdade, a meu ver, a matemática deveria ser apresentada como uma forma de pensar e que, sim, utiliza de inúmeras fórmulas, mas que demanda interpretação, elaboração de hipóteses, testagem, etc.

Além disso, existem outras questões que devem ser consideradas também para melhorar o ensino de matemática na educação básica. Dentre elas, maior financiamento das instituições escolares e valorização do professor.

Por fim, é importante destacar iniciativas como a da ANPMat, que se propõe a manter aceso o debate acerca dessa melhoria – afinal, a constante reflexão é ponto de partida para que possamos propor inovações a cada dia.

4 – Você passou por alguma experiência que tenha transformado você como profissional, que tenha levado você a chegar onde está hoje?

Com certeza a pós-graduação mudou minha vida. Com ela, alcancei maior projeção profissional, não só financeira, mas de reconhecimento mesmo. Além de ter conseguido conhecer pessoas e países que me enriqueceram com um capital cultural que achava que nunca teria.

O Doutorado, por exemplo, me propiciou a oportunidade de conhecer a Austrália. Fui para aprimorar minha pesquisa e voltei com uma experiência ímpar, tendo realizado conexões, aproximado de escolas, experimentado outra cultura – elementos que enriquecem o meu ser e com certeza implica na pessoa que sou hoje. Parece até que vivi 5 anos em 3 meses. Gostaria que todos vivenciassem este tipo de experiência.

É necessário sair da zona de conforto para ver outras formas de organização, bem como para que possamos ampliar nossas opiniões. Hoje sou completamente realizado em minha profissão e empolgado em continuar contribuindo para com a Educação Matemática.

5- Como está sendo a sua experiência com as aulas e atividades on-line? Alguma dica que considera interessante para o ensino remoto?

Estou como supervisor local de Pibid no meu campus. E tem sido uma experiência gratificante.

Quando em contato com o Coordenador do projeto, Professor Cleyton Gontijo, combinamos que faríamos o Pibid como uma sequência de oficinas que estimulassem o pensamento crítico e criativo em matemática de alunos do 1º ano do ensino médio. Ora, a ideia era fantástica e estava alinhada ao que tanto eu quanto ele, estamos produzindo há alguns anos.

Inclusive, a ideia era de que os pibidianos organizassem as oficinas a partir de um modelo que nós mesmos havíamos elaborado e testado em outras ocasiões. A diferença foi conduzi-las em formato remoto. As oficinas contam com diferentes fases: possuem um momento de aquecimento, de aproximação com a tarefa, de um problema investigativo, de sistematização do conteúdo, de retrospectiva e de projeções futuras. E têm sido realizadas de forma satisfatório, inclusive percebendo que alguns estudantes que antes diziam não ser criativos têm mudado de ideia.

Alguma dica que considero importante para registrar? Acredito que o principal sejam as atividades de aquecimento – normalmente colocamos alguns desafios ou curiosidade no início da videochamada para que os estudantes possam pensar e oralizar diferentes respostas. Embora esse aquecimento nem sempre seja acerca do conteúdo principal da aula, serve muito para “quebrar o gelo” entre os alunos, deixando-os mais à vontade para o que vem a seguir.

6- Você fala em pensamento crítico e criativo em matemática. Acredita que é possível estimular este tipo de pensamento mesmo agora quando ainda estamos em ensino remoto?

Sim. Afinal, a ideia do pensamento crítico e criativo é justamente termos a capacidade de pensarmos soluções diferentes a um problema. Sendo assim, é hora de utilizamos de nosso pensamento crítico e criativo como professores, tanto quanto podemos provocar os estudantes a assim também pensarem.

Oferecer problemas pelos quais os estudantes devem refletir e agir como matemáticos é um caminho – é oferecer oportunidades para que possam investigar, hipotetizar, testar…

Uma diferença entre o formato presencial e o remoto, a meu ver, é o tempo que o estudante pode pensar para fazer algumas tarefas. Quantas vezes, em sala de aula, tivemos que acelerar o passo para dar conta do conteúdo trabalhado, ou mesmo para não perdermos o controle de disciplina em turmas muito heterogêneas, furtando momentos que alguns estudantes precisavam para reflexão? Não digo que o formato remoto é melhor, mas que não tendo que manter uma sala de aula cheia de diferentes personalidades, cada estudante tem mais liberdade para pensar, para refletir. Tem seu tempo.

Gosto de pensar que os momentos síncronos devem buscar acender uma fagulha de curiosidade, de modo a deixá-lo pensando no assunto e consequentemente gerando ideias. Ideias que poderão se converter em soluções de problemas. Ideias que poderão servir para que ele perceba o potencial que possui em fazer matemática. Ideias que são criadas a partir de seu pensamento crítico e criativo em matemática.

Entrevista com o prof. Fidelis Castro, egresso do PROFMAT e doutor em Matemática Aplicada pela UNICAMP

1) Nos conte um pouco sobre como se tornou professor de Matemática, sobre a sua trajetória acadêmica e profissional.

Sou natural de Vitória, Espírito Santo. Nasci em uma família bem simples. Minha mãe é vendedora de produtos cosméticos desde o final da década de 1970 e o meu pai era eletricista de automóveis. Ele faleceu quando eu tinha 21 anos. Cresci no bairro Boa Sorte, situado no município de Cariacica, na periferia da Grande Vitória. Estudei todo o Ensino Básico em  escolas públicas, primeiramente na rede municipal de Cariacica, depois na rede estadual.

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